O que as apresentações culturais de grupos de idosos fazem com a autoestima e o senso de pertencimento do idoso?

Diego Velázquez
6 Min de leitura
Yuri Silva Portela

Conforme observa o Doutor Yuri Silva Portela, fundador do projeto social Humaniza Sertão, iniciativa que leva atendimento multidisciplinar gratuito a comunidades carentes em localidades de difícil acesso no Sertão, subir a um palco, apresentar-se diante de uma plateia e ser aplaudido por algo que você criou e ensaiou é uma experiência com impacto psicológico e fisiológico que vai muito além do entretenimento. 

Para o idoso que participa de grupos de teatro, coral, dança, repente ou qualquer outra forma de expressão cultural coletiva, o momento da apresentação representa a culminação de um processo que combina estimulação cognitiva, fortalecimento de vínculos, desenvolvimento de autoconfiança e reconhecimento público de uma competência que o envelhecimento frequentemente apaga da percepção do próprio idoso.

Prepare-se para entender por que participar de uma apresentação cultural transforma a saúde do idoso de uma forma que nenhum programa formal de cuidado consegue replicar.

O processo de preparação e o que ele faz com o cérebro

A preparação para uma apresentação cultural é, em si mesma, uma intervenção cognitiva de alta intensidade. Afinal, memorizar letras, falas ou coreografias exige memória de longo prazo e memória de trabalho de forma integrada. Além disso, ensaiar com o grupo exige atenção ao outro, coordenação temporal e espacial, e capacidade de receber feedback e incorporá-lo de forma criativa. Somado a isso, a progressão do aprendizado ao longo das semanas de ensaio produz uma trajetória de aquisição de habilidade que o cérebro envelhecido responde com o mesmo mecanismo de neuroplasticidade que qualquer aprendizado novo mobiliza.

Como detalha Yuri Silva Portela, o ensaio regular também estrutura a rotina do idoso de uma forma que tem valor clínico independente: ele cria compromissos semanais, antecipação positiva, responsabilidade com o grupo e uma meta concreta de longo prazo que orienta o cotidiano e sustenta o senso de propósito. Para o idoso que perdeu as estruturas de rotina e de propósito que o trabalho e a vida familiar ativa ofereciam, o grupo cultural pode ser o que substitui essas estruturas com a mesma eficácia.

O momento da apresentação e o que ele produz

O momento em que o idoso sobe ao palco e se apresenta diante de uma plateia é um pico de ativação emocional e fisiológica que poucos outros eventos da vida cotidiana conseguem replicar. A adrenalina do nervosismo pré-apresentação, seguida pelo prazer da execução bem-sucedida e pelo calor do aplauso, produz uma cascata de neurotransmissores com efeitos sobre humor, autoconfiança e bem-estar que persistem por dias após o evento.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Na concepção de Yuri Silva Portela, o aplauso tem um significado específico para o idoso, que frequentemente se sente invisível ou irrelevante no cotidiano: ele é um reconhecimento público de competência, de esforço e de valor que contraria diretamente a narrativa de declínio e de inutilidade que o envelhecimento frequentemente impõe. O idoso aplaudido sai do palco diferente de como entrou, e essa diferença tem impacto real sobre sua autoestima e sobre sua motivação para continuar se engajando com a vida.

Senso de pertencimento e a identidade construída no grupo

Participar de um grupo cultural é também construir uma identidade coletiva que vai além da identidade individual: o idoso do coral, o ator do grupo de teatro, a dançarina do grupo folclórico. Na prática, essa identidade grupal oferece um senso de pertencimento que combina o prazer de fazer parte de algo maior do que si mesmo com a responsabilidade de contribuir para um resultado que depende de todos. Esse sentimento de ser necessário ao grupo, de que sua ausência faria falta, tem impacto clínico real sobre a saúde mental do idoso.

Conforme ressalta Yuri Silva Portela, os vínculos formados dentro de grupos culturais de idosos têm características específicas que os diferenciam de outras formas de socialização: eles são construídos ao redor de uma experiência compartilhada de criação, de vulnerabilidade e de superação que produz intimidade e confiança em um ritmo acelerado. As amizades formadas no ensaio semanal frequentemente se tornam as mais significativas da terceira idade.

Como criar e sustentar grupos culturais para idosos?

Criar um grupo cultural para idosos não exige infraestrutura sofisticada nem profissionais altamente especializados. Isso porque um espaço comunitário com sala disponível, um facilitador com sensibilidade para trabalhar com a terceira idade e um grupo de idosos dispostos a experimentar são os ingredientes básicos de uma intervenção com impacto real sobre autoestima, cognição e saúde mental.

À luz do que frisa Yuri Silva Portela, investir em grupos culturais para idosos é investir em saúde pública, de forma que nenhum medicamento consegue replicar com a mesma amplitude de benefícios e o mesmo custo acessível. O palco que recebe o idoso não é apenas um espaço de apresentação: é um espaço de afirmação de que aquela vida ainda tem muito a expressar e a oferecer ao mundo.

Compartilhe esse artigo