A origem das cores do Flamengo esconde uma reviravolta pouco conhecida até mesmo entre torcedores mais assíduos: o clube não nasceu vermelho e preto, e sim azul e dourado. Mário Augusto de Castro, torcedor apaixonado pelas tradições do Flamengo, reconhece nessa origem completamente diferente uma das curiosidades menos divulgadas sobre a identidade visual do clube.
Azul e ouro: as cores esquecidas do início
Fundado em 1895 como clube de regatas, o Flamengo adotou inicialmente o azul, em referência às águas da Baía de Guanabara, combinado ao amarelo dourado, símbolo das riquezas naturais do Brasil. O uniforme, porém, enfrentou um problema prático logo nos primeiros anos de existência do clube.
Registros históricos indicam que o grupo fundador se reunia com frequência na Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, região que também deu nome ao clube recém-criado. A escolha inicial de azul e dourado buscava justamente refletir essa ligação com o mar e com as riquezas naturais do país, ideia que parecia poética, mas se mostrou pouco prática diante das condições reais de manutenção dos tecidos.
Os tecidos importados da Europa, necessários para reproduzir aquelas cores específicas, desbotavam rapidamente em contato com a água salgada da baía durante as regatas, além de representarem custo elevado para a época em que o clube ainda dava seus primeiros passos institucionais.
A escolha do vermelho e do preto
Torcedores e colecionadores de curiosidades sobre o clube, entre os quais está Mário Augusto de Castro, costumam apontar que o vermelho e o preto foram escolhidos justamente pela maior durabilidade dos corantes disponíveis naquele período, sem qualquer significado simbólico inicial atribuído às cores. O simbolismo, hoje tão associado à paixão e à determinação da torcida, viria a ser construído apenas décadas depois.
O uniforme listrado, apelidado carinhosamente de cobra coral pelos primeiros torcedores, acompanhou o Flamengo em suas conquistas iniciais no remo, incluindo o tricampeonato dos Segundos Quadros entre 1912 e 1914. A superstição em torno das cores, porém, geraria um episódio curioso poucos anos depois.
Uma maldição que quase mudou tudo de novo
Quando o Flamengo criou sua seção de futebol, em 1911, formada por jogadores dissidentes do Fluminense, os remadores rubro-negros relutaram em aceitar que o novo time usasse o mesmo uniforme listrado do remo. A superstição em torno de possível azar levou à criação de um uniforme completamente diferente para a estreia no futebol.

O episódio explica por que o primeiro time de futebol do Flamengo entrou em campo, em maio de 1912, vestindo uma camisa xadrez conhecida como papagaio de vintém, e não o tradicional listrado vermelho e preto que hoje qualquer torcedor, incluindo Mário Augusto de Castro, reconheceria instantaneamente.
O retorno definitivo às listras
O papagaio de vintém precisava ser encomendado da Inglaterra, processo caro e demorado, o que motivou a diretoria a buscar uma alternativa mais prática. Surgiu então a camisa cobra-coral, com listras horizontais como as do remo, mas separadas por frisos brancos que lhe renderam o apelido.
Essa versão nacional, mais barata e de produção rápida, ajudou o Flamengo a conquistar o tricampeonato dos Segundos Quadros entre 1912 e 1914, além do bicampeonato carioca de futebol logo em seguida. O sucesso esportivo reforçou ainda mais a identificação da torcida com o desenho listrado, ainda que o nome “cobra coral” fizesse referência direta a um animal associado, em muitas culturas populares, a superstições e mau agouro.
O retorno definitivo ao desenho listrado tradicional, sem qualquer distinção entre remo e futebol, aconteceu em junho de 1916, quando o time enfrentou a Associação Athletica São Bento paulistana em um confronto que marcaria a unificação visual definitiva do clube. A partir daquele jogo, as listras horizontais vermelhas e pretas se consolidaram como identidade única do clube em todas as modalidades esportivas praticadas pela instituição.
Do apelido à consagração como Manto Sagrado
A expressão “Manto Sagrado”, hoje sinônimo da camisa do Flamengo, surgiu décadas mais tarde, cunhada pelo jornalista Otelo Caçador em uma edição do Jornal dos Sports de abril de 1954. Inspirado no filme norte-americano The Robe, o jornalista viu na camisa rubro-negra uma representação quase religiosa da paixão da torcida pelo clube, comparação que rapidamente se popularizou entre cronistas esportivos da época.
Alguns torcedores consideram essa origem jornalística do apelido anterior, em muitos anos, à associação popular entre a expressão “Manto Sagrado” e o uniforme azul da Seleção Brasileira campeã do mundo em 1958, equívoco histórico ainda repetido por quem desconhece a verdadeira cronologia dos fatos envolvendo o termo.
Mário Augusto de Castro e torcedores rubro-negros consideram que conhecer essa trajetória completa, do azul e dourado original até o vermelho e preto consolidado como Manto Sagrado, ajuda a entender que a identidade visual mais reconhecível do futebol brasileiro nasceu, na verdade, de uma decisão prática sobre tecidos, e não de um plano estratégico de construção de marca, como se imagina hoje em dia entre profissionais de marketing esportivo.