Levantamento do Imea mostra safra histórica de milho e alta nas vendas externas da soja, enquanto o clima já preocupa para o próximo ciclo.
O primeiro semestre de 2026 confirmou o que boa parte dos produtores mato-grossenses já esperava: o estado voltou a bater recordes no agronegócio. Segundo dados do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea), a safra de milho segunda safra deve fechar em patamar inédito, enquanto as exportações de soja também avançaram frente ao ano anterior. Para quem acompanha o campo de perto, a dúvida natural é entender o que está por trás desses números e, principalmente, o que eles significam para a renda do produtor e para a economia do estado nos próximos meses. Além disso, o cenário climático já desperta atenção para a safra seguinte, com sinais de El Niño que podem mudar o regime de chuvas no Centro-Oeste. Este texto reúne os principais pontos desse levantamento, explica como os números foram obtidos e detalha os efeitos esperados para quem vive do agronegócio em Mato Grosso.
Produção recorde de milho impulsiona a economia do estado
De acordo com o Imea, a estimativa da safra 2025/26 de milho segunda safra foi revisada para cima e agora aponta para um novo recorde de produtividade no estado: 57,06 milhões de toneladas. O resultado faz parte do projeto Imea em Campo, realizado em parceria com a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT) e o Instituto Mato-grossense do Agronegócio (Iagro MT). O levantamento foi conduzido ao longo de 64 dias de trabalho nas principais regiões produtoras, o que reforça a confiabilidade da amostragem usada para chegar a esse número. NoticiasinterativaNoticiasinterativa
A dimensão do trabalho de campo ajuda a explicar por que o dado ganhou peso entre analistas do setor. As equipes técnicas percorreram 30.829 quilômetros e realizaram 833 avaliações em 82 municípios, cobrindo praticamente toda a área cultivada com milho de segunda safra no estado. Segundo o instituto, o número médio de grãos por espiga cresceu em relação ao ciclo anterior, assim como o peso dos grãos, com o Médio-Norte se destacando como a região de melhor desempenho, enquanto o Centro-Sul ficou abaixo da média estadual nesse indicador.
Os números de comercialização também chamam atenção. Até julho, mais da metade da produção de milho da safra 2025/26 já havia sido vendida, com preço médio ponderado próximo de R$ 43 por saca, segundo o levantamento do Imea. Para a safra seguinte, 2026/27, as vendas antecipadas começaram em ritmo mais lento, mas já superam 7% do total estimado, com preços um pouco mais elevados. Esse movimento mostra que o produtor mato-grossense tem conseguido negociar parte da próxima colheita mesmo antes do plantio, uma estratégia comum para reduzir riscos de mercado.
Apesar do otimismo com a produtividade, o cenário econômico segue exigindo cautela por parte de quem planeja investimentos para a próxima safra. Custos de produção, câmbio e logística continuam sendo variáveis que pesam na decisão de plantio, mesmo em um ano de resultado recorde. Para o produtor, o desafio passa a ser transformar volume em rentabilidade, algo que depende tanto do preço obtido na venda quanto do custo do frete até os portos.
Exportações de soja também avançam no primeiro semestre
No caso da soja, o desempenho de Mato Grosso também ficou acima da média nacional. Conforme dados divulgados pelo Imea, as exportações do estado somaram 24,06 milhões de toneladas no primeiro semestre, volume 5,15% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior, o que representa 34,59% de tudo o que o Brasil exportou do grão. Em âmbito nacional, o escoamento da soja também cresceu, alcançando o maior volume da série histórica para o período, impulsionado pela produção elevada da safra 2025/26.
A China segue como a principal compradora da soja produzida em Mato Grosso, mesmo com uma pequena redução no volume importado em comparação ao ano anterior. Em compensação, outros mercados ampliaram a participação nas compras do grão mato-grossense, um movimento que indica diversificação de destinos e menor dependência de um único parceiro comercial. Essa diversificação tende a proteger o estado de oscilações bruscas de demanda vindas de um único país.
Do lado da comercialização interna, o Imea aponta que a venda da soja da safra 2025/26 já ultrapassou a maior parte da produção estimada, avanço puxado pelos preços mais elevados do grão e pela necessidade de liberar espaço nos armazéns para receber a colheita de milho. Para a safra 2026/27, o ritmo de negócios também avançou, com o preço médio negociado para a temporada futura em alta frente ao mês anterior, segundo o levantamento mais recente do instituto.
Esses números de comercialização são acompanhados de perto pelos produtores porque indicam o momento certo de vender e de guardar parte da colheita. Quando o preço futuro sobe, como ocorreu neste ano, cresce também o interesse em negociar a próxima safra com antecedência, uma prática que tende a se intensificar conforme o clima se torna mais incerto para o ciclo seguinte.
Clima e logística preocupam para a safra seguinte
Enquanto os números de 2025/26 seguem positivos, o Imea já projeta um cenário mais desafiador para a soja da safra 2026/27. Segundo o instituto, a produção deve recuar cerca de 5,2% em relação ao ciclo anterior, influenciada pela possível formação do fenômeno El Niño, que tende a alterar o regime de chuvas em diferentes regiões do Brasil. A expectativa é de mais chuva no Sul do país e maior irregularidade justamente no Centro-Oeste, região que inclui Mato Grosso.
O período mais sensível da soja a esse tipo de instabilidade climática é a transição entre a floração e a formação das vagens, fase em que qualquer estresse hídrico ou térmico pode comprometer diretamente a produtividade final. Como a segunda safra de milho depende do calendário de plantio da soja, qualquer atraso provocado pelo clima tende a afetar as duas culturas em cadeia, o que exige planejamento antecipado por parte dos produtores.
Além da variável climática, a logística de escoamento também voltou ao centro das atenções em Mato Grosso. A Agência Nacional de Transportes Terrestres deve licitar o controle da concessionária responsável pela BR-163 no trecho entre Sinop e Miritituba, com previsão de cerca de R$ 10 bilhões em obras na rodovia. Como a via é uma das principais rotas de escoamento da produção do norte do estado até os portos do Arco Norte, qualquer melhoria estrutural tende a reduzir custos de frete para quem produz grãos na região.
A combinação entre recorde de produção, exportações em alta e incertezas climáticas para o próximo ciclo resume bem o momento vivido pelo agronegócio mato-grossense. Os resultados de 2025/26 mostram a força do estado como maior produtor de grãos do país, mas o Imea já sinaliza que 2026/27 pode exigir mais cautela dos produtores. Entre o otimismo com os números atuais e a atenção ao clima que se desenha, o setor segue como um dos principais indicadores da economia de Mato Grosso, com efeitos que vão do campo até o comércio das cidades do interior.
Fontes: Safras & Mercado | CNA Brasil | Notícias Interativa | Agrolink | Só Notícias | Radar Digital Brasília