Taiza Tosatt Eleoterio fala que a psicanálise no contexto familiar vai muito além de resolver brigas entre parentes

Serena Bellieri
5 Min de leitura
Taiza Tosatt Eleoterio

Quando uma família chega para acompanhamento psicanalítico, raramente é para “resolver uma briga específica”. O motivo costuma ser mais difuso: uma sensação de que algo se repete, de que o mesmo tipo de conflito volta sob roupagens diferentes, sem que ninguém consiga explicar exatamente por quê.

A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, especialista em saúde mental e relações familiares, observa que a psicanálise no contexto familiar não trabalha para apagar conflitos, mas para ajudar a família a entender o que sustenta esses padrões, o que muda completamente a forma como cada crise passa a ser vivida.

Dar nome ao que a família não consegue nomear

Muitas dinâmicas familiares operam por regras implícitas: quem pode reclamar, quem precisa ceder, o que não pode ser dito à mesa. Nesse contexto, Taiza Tosatt Eleoterio ressalta que um dos primeiros efeitos do acompanhamento psicanalítico é colocar essas regras em palavras, o que já reduz parte do peso que elas carregam quando permanecem invisíveis.

Nomear não significa culpar ninguém. Significa simplesmente reconhecer que existe um padrão, o que abre espaço para que ele possa ser questionado em vez de apenas repetido. Uma família que sempre evitou falar sobre dinheiro, por exemplo, pode descobrir que o silêncio em torno do tema é o que alimenta boa parte das tensões que pareciam, à primeira vista, não ter relação com isso.

Revelar padrões que se repetem entre gerações

É comum que uma forma de lidar com conflito, afeto ou autoridade atravesse gerações sem que ninguém tenha escolhido conscientemente reproduzi-la. Um pai que grita porque foi criado assim, uma mãe que evita qualquer confronto porque aprendeu que discordar era perigoso.

Taiza Tosatt Eleoterio destaca que identificar esses padrões intergeracionais é um dos pontos mais reveladores do trabalho psicanalítico em família, porque frequentemente o comportamento que incomoda hoje é uma repetição, não uma escolha deliberada de quem o pratica. Reconhecer essa origem não justifica o comportamento, mas ajuda a família a lidar com ele com menos ressentimento e mais possibilidade real de mudança.

Criar espaço para que cada membro seja ouvido individualmente

Em muitas famílias, existe sempre alguém que fala mais alto e alguém que se acostuma a ceder espaço. O acompanhamento psicanalítico costuma incluir momentos individuais justamente para que vozes menos ouvidas dentro de casa possam se expressar sem a pressão da dinâmica coletiva.

Isso vale especialmente para crianças, que muitas vezes absorvem tensões familiares sem ter onde colocá-las, e para quem ocupa um papel de cuidador dentro da própria família, sem espaço para também ser cuidado. Dar atenção individual a essas vozes não fragmenta a família: costuma, na verdade, tornar o trabalho conjunto mais honesto depois.

Ajudar a família a lidar com crises sem culpar um só integrante

Em momentos de crise, é comum que a família aponte um “problema” específico, geralmente encarnado numa pessoa: o filho rebelde, o pai ausente, a mãe controladora. Segundo a psicanalista, essa busca por um único culpado costuma aliviar a ansiedade no curto prazo, mas raramente resolve o que está por trás do conflito.

O trabalho psicanalítico ajuda a deslocar o olhar do indivíduo isolado para a dinâmica como um todo, o que costuma tornar a crise menos pessoal e mais compreensível para todos os envolvidos.

O que muda quando a família entende a própria dinâmica?

Entender os próprios padrões não elimina os conflitos, mas muda a forma como a família reage a eles. Discussões que antes pareciam repentinas passam a ter contexto, e reações que pareciam desproporcionais começam a fazer sentido dentro da história de cada um. Por fim, Taiza Tosatt Eleoterio conclui que esse tipo de compreensão não resolve tudo de uma vez, mas costuma ser o que permite que uma família comece, aos poucos, a construir formas mais saudáveis de conviver.

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