Rede de lojas: O que muda quando o dono sai do balcão

Serena Bellieri
5 Min de leitura
Fredy da Silva Gonçalves Bento

Por volta do ano 2000, o empresário Fredy da Silva Gonçalves Bento, conhecido como Fredy Restrito, vendia roupas no quarto de casa, no Parque Bitaru, em São Vicente. Ali valia uma regra que todo comerciante de bairro conhece: o dono sabe o nome de cada cliente, guarda o estoque de cabeça e fecha a venda pessoalmente. O curioso é que esse mesmo talento costuma impedir uma rede de lojas de nascer.

Mais de duas décadas depois, a trajetória chegou à Litoral Mobilidade, empresa de mobilidade elétrica com importação e distribuição próprias. Entre um ponto e outro, existe uma sequência de trocas que todo varejista em expansão precisa fazer. Nos próximos parágrafos, você encontrará as principais delas.

Da memória do dono para o processo escrito

No varejo pequeno, a regra de troca, o desconto para o cliente antigo e o jeito de apresentar o produto vivem na memória de quem atende. Isso não é defeito. Fredy Restrito, nesse contexto, menciona que essa é a fase em que o negócio aprende o que o cliente valoriza.

O problema aparece na segunda loja. Um vendedor contratado não herda essa memória, e cada decisão improvisada vira uma versão diferente da empresa. Dados do Sebrae mostram que três em cada dez microempreendedores individuais encerram as atividades em até cinco anos, e um negócio que depende inteiramente de uma pessoa fica exposto a qualquer imprevisto dela.

Do estoque no quarto ao centro de distribuição

Quem vende roupa em casa compra pouco, vende rápido e enxerga toda a mercadoria com um olhar. Quando o volume cresce, essa visão desaparece. O produto parado em uma loja falta em outra, e o capital fica preso no lugar errado.

O centro de distribuição resolve boa parte disso ao concentrar a mercadoria e abastecer as unidades conforme a demanda real. Na Litoral Mobilidade, essa estrutura ocupa mais de 2.000 m² e sustenta um estoque de aproximadamente R$ 8 milhões. Com produto importado, o intervalo entre o pedido e a chegada torna o planejamento ainda mais sensível.

Do dono que vende para a equipe que vende

Contratar é a troca mais difícil para quem começou sozinho. O fundador precisa aceitar que outra pessoa atenderá o cliente de um jeito diferente, e que seu papel passa a ser formar gente. Como manter o padrão sem estar em cada atendimento? Com treinamento, rotina e liderança próxima.

Essa passagem também muda o peso social do negócio: uma operação com mais de 40 colaboradores já influencia a economia local. A trajetória de Fredy Restrito passou ainda pela gastronomia, com o Restaurante Capitães e o Hina Restaurante, criado com a irmã Milena da Silva, e pela Eventos Litoral, setores em que o resultado depende inteiramente da equipe.

Da venda para o pós-venda

Na loja de roupas, a relação com o cliente costuma terminar no caixa. Em produtos com bateria, motor e componentes eletrônicos, ela começa ali. Uma scooter elétrica vendida sem assistência técnica estruturada vira, meses depois, cliente insatisfeito e reputação desgastada.

Por isso, redes de mobilidade elétrica que pretendem crescer tratam peça de reposição, diagnóstico e garantia como parte do produto. Fredy da Silva Gonçalves Bento aponta a assistência técnica, ao lado do varejo e da importação, como um dos conhecimentos acumulados ao comercializar centenas de veículos elétricos por mês.

Quando o método vira franquia

A franquia é o teste final dessas trocas, porque só funciona se o negócio prosperar longe do fundador. Segundo a Associação Brasileira de Franchising, o setor faturou mais de R$ 300 bilhões em 2025, com alta de 10,5%. É um mercado inteiro apoiado em processos capazes de viajar.

A Litoral Mobilidade está nessa etapa, com o projeto de uma rede de franquias de alcance nacional. Para Fredy Restrito, empresas grandes podem nascer de começos pequenos quando existe trabalho, capacidade de adaptação e visão de longo prazo. Vista assim, a loja no quarto de casa não é o oposto da rede, e sim o laboratório em que o método foi descoberto.

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